Mais uma colher de lascívia, por favor

Gaveta obscena é exatamente o lugar onde eu deveria ter chegado um dia. Talvez, eu já estivesse aqui, antes mesmo de criá-lo. Toda criação vem de nós e parece nos preceder. A criação me domina. Pertenço ao que imagino. Psicanalistas, poetas, cinéfilos, artistas de um modo geral, entusiastas de uma boa conversa insana regada a litros de café, vinho barato e atos falhos, deite-se comigo em meu divã imaginário e sinta-se mais do que à vontade. 


Acho que desde sempre tive este gosto estranho pelos abismos. Gosto de flertar com eles. Olhar de esguelha. Sorrisinho de canto de boca. Estou passando por aqui, por acaso , digo para mim mesma , cortando em dois ou em três uma possível culpa. 

Ando de um lado para o outro. Espero alguém? Procuro algo? Revisito as milhares de gavetas e prateleiras caóticas da memória antes de dar mais uma piscadinha para o tal abismo.

Acho que desde sempre tive este faro para as pequenas mentiras cotidianas. Sinto cheiro de qualquer uma delas como quem inala o odor de um bolo quente , recém-saído do forno. 

A massa fumegante e fofinha se desmancha pela boca , mas o sorrisinho torto continua ali. 

Existe algo de intrigante em qualquer nota destoante.

Acho que desde sempre tive esta sintonia com o caos , com o acaso, com o estar no local errado , justamente na pior hora possível.

Acho que desde sempre quis estar no local errado, perder o último trem que vai para casa , vagar pelos perigos da cidade , esta cidade cheia de monstros imaginários iluminados por neon roxo, que vagam por aí me convidando para apenas mais uma desviada de rota , para apenas mais uma mentirinha sem importância. 

Mais do que o abismo e a mentira , sinto-me seduzida pela transgressão, por fazer as coisas viradas , do jeito contraindicado no manual de instruções. Não há nada mais chato do que manuais e livros de receita. Jogo os temperos na panela a meu bel prazer. Nunca há o suficiente daquilo que nos dá prazer. Ok.Ok.Ok. Vai ser a última colher de lascívia. Prometo para mim mesma, mas sou uma falsária como todo poeta. 





Este artigo foi publicado no meu blog Garota desbocada.


No meu blog Gaveta obscena vou divulgar textos variados de minha autoria, de diversas categorias. Entre elas: críticas fílmicas, contos, devaneios poéticos e artigos sobre comportamento.


Sou psicanalista, professora, escritora, atriz e doutora em Comunicação e Semiótica. Fundei a empresa Sílvia Marques Produções Artísticas Independentes, responsável por oferecer cursos na área de Humanidades e montar  minhas peças teatrais.

Ofereço sessões de terapia acolhedoras e online, mentoria de autodesenvolvimento e formo psicanalistas. 

Publiquei 10 livros individuais, participei de 11 coletâneas, as quais organizei três. Venci sete concursos literários, fui indicada ao prêmio Jabuti em 2013. Mais de 500 artigos de minha autoria circulam por blogs variados. 


www.psicanalistasilviamarques.com


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